domingo, 27 de maio de 2012

Posso escrever...devo pintar!

Maio/2012 - Picolli


Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe". 
O vento da noite gira no céu e canta. 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou. 
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito. 

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. 
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi. 

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. 
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo. 

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido. 
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo. 

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. 
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. 

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. 
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. 

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido. 
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.


Pablo Neruda

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Sonhos....

Quero que as asas de meus pés se abram num lance irreversível pelas estradas do mundo.
Almejo o caminhar pulsante em lugares desconhecidos e misteriosos.
Desejo voar pelo mundo que Deus criou, conhecer a solidão alheia e mergulhar profundamente em minha própria solidão.
Peço a dor da pegada gelada e a alegria da descoberta de minha alma.
Agradeço pelo corpo físico que me foi concedido e a saúde da qual usufruo, para que minhas pegadas pelo mundo sejam possíveis e verdadeiras.



quarta-feira, 16 de maio de 2012

Saudade de dançar...


[...] When we were strangers
I watched you from afar
When we were lovers
I loved you with all my heart.....


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Um conto...

Um conto que descreve o intangível...
Alguém um dia me perguntou o que é o amor, e não percebeu que viveu ele em vários contos como esse!





quinta-feira, 26 de abril de 2012

Paisagem

Quero, para compor meus castos monólogos,
Deitar-me ao pé do céu, assim como os astrólogos,
E, junto aos campanários, escutar sonhando
Solenes cânticos que o vento vai levando.
As mãos sob meu queixo, só, na água-furtada,
Verei a fábrica em azáfama engolfada;
Torres e chaminés, os mastros da cidade,
E o vasto céu que faz sonhar a eternidade.

É doce ver, em meio à bruma que nos vela,
Surgir no azul a estrela e a lâmpada à janela,
Os rios de carvão galgar o firmamento
E a lua derramar seu suave encantamento.
Verei a primavera, o esteio, o outono; e quando,
Com seu lençol de neve, o inverno for chegando,
Cada postigo fecharei com férreos elos
Para na noite erguer meus mágicos castelos.
Hei de sonhar então com azulados astros,
Jardins onde a água chora em meio aos alabastros,
Beijos, aves que cantam de manhã e à tarde,
E tudo o que no Idílio de infantil se guarde.
O Tumulto, golpeando em vão minha vidraça,
Não me fará volver a fronte ao que se passa,
Pois que estarei entregue ao voluptuoso alento
De relembrar a primavera em pensamento
E um sol na alma colher, tal como quem, absorto,
Entre as idéias goza um tépido conforto.

Charles Baudelaire - As Flores do Mal

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Dia especial...

Um dia recebi, de uma pessoa muito importante que passou pela minha vida, meu nome escrito num grão de arroz e hoje, um dia especial e cheio de lembranças e saudades, lembro desse grão de arroz e dos momentos de alegria. 

Um grão de arroz com meu nome e uma cereja coberta de chocolate. Foram uns dos presentes mais lindos que já ganhei, simples, pequeno, singelo e com muito amor!

O que posso lhe dar hoje é meu amor e meus pensamentos através da oração e dessa canção que lhe dedico.

Amo vc!



segunda-feira, 9 de abril de 2012

A uma passante...


A rua, em torno, era ensurdecedora vaia.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão vaidosa
Erguendo e balançando a barra alva da saia;
Pernas de estátua, era fidalga, ágil e fina.
Eu bebia, como um basbaque extravagante,
No tempestuoso céu do seu olhar distante,
A doçura que encanta e o prazer que assassina.
Brilho... e a noite depois! - Fugitiva beldade
De um olhar que me fez nascer segunda vez,
Não mais te hei de rever senão na eternidade?
Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois não sabes de mim, não sei que fim levaste,
Tu que eu teria amado, ó tu que o adivinhaste!


Poesia de Charles Baudelaire do livro "As Flores do Mal"



Cidade - Luz, A Paris -  retratada com pinceladas impressionistas por Édouard Léon Cortèz. Obra de arte que expressa sensibilidade e parece retratar não apenas um lugar mas o espírito do lugar.