Todos os dias do ano acordamos, mergulhamos na imensidão dos nossos afazeres diários e quando chega a noite adormecemos, acompanhados de sonhos desconexos e bizarros. Quase sempre todos os dias são iguais, e raríssimas são às vezes em que um momento desses dias iguais são memoráveis. Não me recordo onde fui e o que fiz há três dias. É espantoso quando paramos para pensar nas coisas que já fizemos, nos lugares que já passamos e nas pessoas que conhecemos. Tento me lembrar de uma frase dita, mas não consigo. Fechos os olhos e faço um tremendo esforço para entender o tempo....ele que passa tão rápido que nem nossos pensamentos conseguem acompanhá-lo. Quase sempre que paro para tentar escutá-lo ou ao menos senti-lo passando pelas pálpebras de meus olhos, sempre que tento, meus olhos se fecham e me tranco na escuridão da minha alma. Tentar escutar o tempo, tentar sentir o tempo é apavorante e instigante. Você sabe que não é possível, mas sempre tenta e, no final sempre se fecha.
Certo dia, acordei pela manhã tomei meu café, ou acho que tomei, pois todos os dias acordamos e dormimos para acordar novamente para um novo dia, e quase todos os momentos desses dias são imemoráveis; mas lembro de ter sentando em um banco na faculdade, sabe aqueles banquinhos de cimento? Então, estava sentada ali, com um livro aberto (lembro do livro, pois estou sempre acompanhada de um, e naquele momento certamente eu estava entretida em alguma leitura), esperava o horário para entrar no trabalho. Lembro que nessa época eu fazia estágio na faculdade, no laboratório de publicidade. Mas, e se eu tivesse levantado gripada nesse dia, sem condições de trabalhar? Certo que eu não teria sentado naquele banco de cimento da faculdade. E se o meu ônibus tivesse quebrado no caminho fazendo eu me atrasar? Certamente eu não teria tempo para sentar-me no banco de cimento da faculdade. Um série de “se” são levantados para tentar justificar momentos que foram memoráveis, mas que duraram tão pouco tempo. De novo o tempo. Ele está sempre conosco, nem atrás nem à frente, mas sim sempre ao nosso lado.
Foram 303 dias de momentos memoráveis, lembro de todos eles. E novamente penso no “se”; e se naquele dia eu não tivesse sentado no banco de cimento? Os 303 dias memoráveis não teriam acontecido? Minha cabeça dói quando penso demais nos “se” e no tempo. Estou aprendendo a deixar que o tempo me conduza sem que eu faça força contra. Estou começando a entender que existem momentos que florescem na primavera, crescem no verão, amadurecem no outono e morrem no inverno, e que na estação seguinte nasce um novo momento e todo o ciclo de repete, mas com sutis diferenças que valem cada inverno que passa.
Tem dias que sinto a vida escorregando de minhas mãos e não consigo fazer nada para segurá-la. Sinto-me impotente diante dos fogos de emoções que insistem em explodir dentro do meu peito. A inquietude toma conta da razão e perco o chão em segundos. Ainda estou suspensa. Flutuo no ar e não sinto nada sob meus pés. Estou de olhos abertos, porém cobertos de nuvens.
Estou quase chegando ao fim de um inverno, estou quase lá.
Por favor, não me chame agora, eu não quero acordar.
Prato do dia: Lentilha acompanhado de um vinho tinto suave
Música: Naked as we came
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